terça-feira, 20 de junho de 2017

Aprendendo a ser Dependente de Deus

Assim, como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formou os ossos no ventre da que está grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que fez todas as coisas” (Eclesiastes 11:5)

Introdução

Uma das maiores inquietações do homem é perceber que não está no controle de sua própria vida. É saber que é impotente diante de algumas situações. Ele tenta, por todos os meios ser autossuficiente. Se assim o fosse, ele certamente, não precisaria de ninguém, seria o deus de si mesmo. Porém, por mais que relute em admitir, existe um ser maior que está no controle de todas as coisas, que rege e governa soberanamente todas as coisas. Enquanto não nos submetermos a Ele, estaremos nos assemelhando as ondas de um mar revolto que se agita de um lado para o outro até se chocar em um penhasco e perder as suas forças. É nesses momentos que o homem entra em um conflito existencial muito grande e se desespera. Refletir sobre essas questões se faz necessário e este texto nos fornece elementos riquíssimos para repensarmos a nossa vida e nos posicionarmos diante do criador.

Síntese da Mensagem do Livro de Eclesiastes

O livro e Eclesiastes mostra as várias nuances da vida do homem que tenta viver sem Deus. Por um lado, ele acredita que pode ser feliz por si mesmo. Busca, desenfreadamente satisfazer os seus desejos de muitas formas, através do poder, do conhecimento, das riquezas, do sexo, dos vícios, etc.  Por outro lado, descobre também, o engano, porque nenhuma dessas coisas podem preencher o vazio existencial que sente. Porque há em nós um vazio do tamanho de Deus, e nada e ninguém é capaz de preenche-lo senão o próprio Deus.

E foi essa a trajetória de Salomão, um homem que recebeu da parte de Deus muita sabedoria e riquezas, mas que preferiu conduzir sua vida segundo o seu próprio entendimento, de forma extravagante e fútil.  Embrenhou-se pelo caminho do engano e tornou-se um homem infeliz. Como consequência, houve um declínio espiritual acentuado em sua vida.

Teve tudo o que um ser humano poderia desejar, fama, honras, riquezas, prazeres, porém, distanciou-se dos caminhos do Senhor e, somente na sua velhice, reconheceu que desperdiçou a sua vida com futilidades pois, admitiu que todas essas coisas eram apenas “vaidades” (Ec 1.2). Considerou que o mais importante de tudo é o tempo que dedicamos ao Senhor (Ec 12.1), o temor e obediência aos seus mandamentos (Ec 12.13,14). Conclui afirmando que esse é o único caminho que dá sentido à vida.  Restou-lhe o arrependimento.  

11 “E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando tinha feito; e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito e que proveito nenhum havia debaixo do sol” (Ec 2.11)

Nível de Dependência de Deus

Salomão considerou que a melhor coisa é estar com Deus, estar debaixo da obediência e do temor a Ele. Porém, ter uma vida com Deus implica em relacionamento. Esse relacionamento é baseado em uma estreita relação de obediência e dependência. Não podemos estar com Deus, de braços dados com o mundo ou querendo conduzir as coisas à nossa maneira. Deus exige de nós exclusividade e obediência. Portanto, cabe a nós a decisão de optarmos em estar por inteiro nesse relacionamento.

9 Mas vós, sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido [...] 10 Em outro tempo, não éreis povo, mas agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora, alcançaste misericórdia”.(1Pe 2.9,10)

Somos um povo separado, adquirido por um alto preço (1 Co 6.20), fomos resgatados pelo precioso sangue de Jesus Cristo (1 Pe.1.19). Ele nos transportou do Reino das trevas para a Reino do Filho do seu amor em quem temos a redenção (Cl 1.13,14). Temos agora uma nova vida em Cristo e essa nova caminhada com Cristo, não é fácil. O exercício de nos despojarmos da velha natureza, onde o centro de tudo era sempre o “eu”, para agora, abrirmos mão da nossa própria vontade para que a vontade soberana de Deus se realize em nossas vidas. O apóstolo Paulo diz que “a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2) e suas bênçãos nos enriquece e não acrescenta dores (Pv 10.22). Ou seja, o que Deus nos concede, por acréscimo de suas misericórdias é sempre bom.

O Exercício da Fé

A Bíblia diz que o justo viverá pela fé (Hc 2.4c). Essa fé, não é algo que adquirimos por nós mesmo, mas nos é concedido como um dom de Deus (Ef 2.8b). Essa fé é forjada mediante as circunstâncias que nos conduzem a um nível profundo de confiança em Deus, alicerçada na Palavra ( Rm 10.17). De acordo com a Bíblia, fé “é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (Hb 11.1). Ou seja, é dar existência a algo que ainda não aconteceu, mas que se tem a plena convicção que vai acontecer.  A fé é condição essencial para que o mover de Deus aconteça em nossas vidas, conforme o autor das Cartas aos hebreus diz: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6). Deus usa as circunstâncias para forjar a nossa maturidade cristã.

A Dinâmica do Agir de Deus                                                         

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento...” (Ec 11.5a)

Assisti outro dia uma ministração do Pr Luciano Subira, cujo título é “O Agir Invisível de Deus”, onde ele traz uma interpretação muito interessante acerca deste versículo. E vou tomar a liberdade de aqui fazer um rascunho da sua fala para ilustrar melhor esta tão rica mensagem.  Tomando a sua própria fala ele diz “que Deus, não é apenas um  Deus que age, mas que tem o controle de tudo o que faz”, fazendo  menção do Cap 11 de Eclesiastes no v 5c. Sim, Deus age em todas as circunstâncias e de forma nem sempre tão clara para o nosso entendimento. Muitas vezes, consideramos que Deus não está vendo o nosso problema e não está agindo em nosso favor pelo simples fato de que não temos evidências palpáveis para avaliar essa situação. Este versículo, nos oferece a possibilidade de dimensionar o agir de Deus mesmo quando estamos diante de um fenômeno do qual não conseguimos compreender.

O texto foi escrito em uma época que não se tinha os conhecimentos meteorológicos para afirmar com certeza como se dá as mudanças do vento. As correntes de ar se movimentam o tempo todo e mudam a direção constantemente. A olhos nus não temos como compreender o fenômeno em si, mas podemos percebê-lo pelo movimento que faz em torno de si por onde passa, movimentando as plantas e podemos senti-lo pelo tato. Mas não o compreendemos. Assim é também em relação a Deus. Embora não desconsiderando a sua existência, por falta de conhecimento, não entendemos a sua maneira de agir e até mesmo o seu silêncio, muitas vezes.

Há um Tempo para Todas as Coisas

...nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida...” (Ec 11.b)

Estamos acostumados a um imediatismo, onde tudo tem que ser para ontem. No entanto, no que diz respeito as coisas de Deus, não funciona desse jeito, pois “tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec 3.1). Deus tem propósitos bem definidos para as nossas vidas. O silêncio de Deus não significa indiferença para conosco e sim, que não nos compete saber o que Ele está fazendo no momento. Assim como o processo de formação da criança no ventre de sua mãe está oculto aos nossos olhos o seu desenvolvimento ocorre lentamente, e no tempo oportuno, podemos contemplar os resultados pelas evidências claras e óbvias. Desta forma também, Deus trabalha por nós.

O Agir de Deus é um Ato de Soberania

“... assim como também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” (Ec 11.b).

Nem sempre podemos compreender o agir de Deus. Mas uma coisa é certa, Ele não está indiferente à nossa situação. Ele sabe cada detalha de nossa vida, sabe as nossas necessidades, as nossas angústias e tristezas. Nem sempre Ele revela os seus propósitos e só vamos compreendê-lo mais adiante. O silêncio de Deus nos deixam inseguros e inquietos. Mas o silêncio de Deus significa também, que Ele está trabalhando e não quer ser interrompido.  Deus está no controle de todas as coisas.  A decisão de nos revelar ou não as coisas, pertencem a Ele. Isto é um ato de soberania divina. Ele não tem por obrigação nos dar satisfação de seus atos. Mas uma coisa é certa, ele sempre trabalha em favor do seu povo.

Esse tempo de espera, embora seja angustiante, é necessário. Pois, é justamente nesse período mais difícil que devemos exercitar a nossa fé e aprender a esperar no Senhor. O profeta Isaías diz que “aqueles que esperam no Senhor, renovarão as suas forças e subirão com asas, como águias; correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão” (Is  40. 31), isto porque, segundo diz o salmista Davi, “O Senhor é a minha força e o meu escudo, nEle confia o meu coração” (Sl 28.7). Se, verdadeiramente, cremos que Deus é Deus, então temos que aprender a confiar nEle e descansar o nosso coração porque no tempo oportuno, a vitória vai chegar.

Deus tem Propósitos em Tudo o que Faz

Muitas vezes nos questionamos sobre as razões que levam Deus se manifestar de forma clara em algumas situações e em outras se manter em silêncio. Podemos cogitar, pelo menos duas razões pelas quais isso ocorre, conforme veremos a seguir.

1- Fortalecer a nossa fé

Conforme já, mencionamos neste texto, toda a nossa relação com Deus é baseada na fé, “visto que andamos por fé e não por vista” ( 2 Co 5.7), ou seja, é pela fé que nos movemos e não por aquilo que podemos ver. A nossa relação com Deus, necessariamente não precisa estar pautada no que vemos mas no que sabemos. E o que sabemos é o que Ele mesmo disse, de que sempre estaria conosco em todas as circunstâncias: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.20). É uma afirmativa de que Ele se faz presente o tempo todo em nossas vidas. E disse mais, “Nunca te deixarei nem te desampararei ” (Hb 13.5b). Assim, não nos resta dúvidas de que, apesar de todas as circunstâncias, muitas vezes adversas,  Deus está presente em nossas vidas e não há porque duvidar que tudo o que Ele faz é para o nosso bem. Como diz a canção, “Se Ele fizer Ele é Deus, senão fizer, continua sendo Deus”. A Ele a glória para todo o sempre, amém!

2- Nos Preservar dos Ardis do Maligno

O apóstolo Paulo fala que o Evangelho era um mistério oculto de Deus e que só foi revelado depois da obra concluída para que o inimigo não tentasse interferir em seus planos (Ef 3.3-9). Esse mistério só foi revelado pelo Espírito aos santos (Cl 1.26). Não tendo conhecimento pleno dos planos de Deus, o diabo, muitas vezes, na tentativa de impedir que os propósitos de Deus se cumpram, ele acaba corroborando para que a vitória seja alcançada, como foi no caso de Jesus, pois, acreditando que conduzindo Jesus a morte seria o fim, ele fez de tudo para que isso acontecesse. No entanto, era justamente a morte na cruz que levaria Jesus a cumprir os planos de redenção da humanidade, onde ali cravou na cruz, toda condenação que pesava sobre nós (Cl 2.14.) E a sua ressurreição é a vitória que nos enche de esperança e nos move para irmos ao encontro do mestre.

Da mesma forma, o inimigo não pode saber de tudo, ele observa, colhe informações, espreita, mas não sabe o que Deus tem para nossas vidas. Sabe que somos escolhidos e isso já é motivo o suficiente para tentar nos barrar. Porém, ele não tem permissão para fazer o que quer. Só pode agir até onde Deus permite. E por qual razão Deus permite o mal? Para que o mal resulte em um bem maior. No caso de Pedro, Jesus disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo” (Lc 22.31). Mas por que haveria necessidade de Pedro ser tentado? Ele não tinha uma vida íntima com o mestre? Não havia largado tudo para seguir Jesus? Sim. Tudo isso é verdade.

Mas havia ainda necessidade desse mesmo homem ser aperfeiçoado para a grande obra que Deus tinha para realizar através de sua vida. Ele era ainda muito carnal, muito impetuoso. Precisava alicerçar a sua fé e amadurecer. Depois desse episódio, Pedro nunca mais foi o mesmo. Estava agora pronto para se tornar pescador de homens (Jo 21.17).  Mas mesmo na prova, Deus é o quarto homem na fornalha como no caso de Mizael, Ananias e Azarias ( Dn 1-30). Depois de avisar Pedro a respeito da provação que o aguardava, Jesus disse: “Mas, eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça...”” (Lc 22.32). O diabo também tentou contra a vida de Daniel, e usou de astúcia para lança-lo na cova dos leões. Deus não impediu a ação do inimigo, mas esteve com Daniel na cova, impedindo que os leões o devorasse.  Com isso a glória de Deus foi manifesta e Daniel foi colocado entre os principais do reino. Ou seja, o que era para ser a destruição, acabou servindo de alavanca para Daniel alcançar a vitória que Deus havia projetado em sua vida.


Conclusão

Como vimos, Deus é Deus e tem um jeito que é só dEle. Não nos cabe questionar o seu modo de agir “porque dEle e por Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11.36). A Ele seja a honra, a glória e o louvor para sempre. Tudo o que Ele faz é perfeito e não há nada que fuja ao seu controle. Estamos guardados debaixo de suas potentes mãos e sabemos que os seus pensamentos sobre nós são bons (Jr 29.11), maiores e melhores do que os nossos pensamentos (Is 55.9). Deus tem planos grandes em nossas vidas, mas antes de nos colocar onde Ele quer, ele nos capacita, nos prepara. Mesmo sem entender o porquê de muitas provações, se Deus permitiu é porque há um propósito para isso e só vamos entender mais adiante quando chegarmos no lugar onde Ele já preparou para estarmos. José precisou passar por tudo que passou para chegar onde chegou. Em parte, o inimigo usou seus irmãos para tentar destruir os planos de Deus em sua vida, mas acabou conduzindo-o para o lugar onde estava reservado a sua vitória. José só foi entender isso lá na frente. Sejamos perseverantes, sempre constantes na obra do Senhor, sabendo que o nosso trabalho não é vão, no Senhor (1 Co 15.58).

Sonia Oliveira

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